Identificar as emoções e aprender a geri-las desde pequenos é também uma
forma de prevenir problemas na infância e adolescência, diz directora de
escola de Leiria. Num congresso no ISCTE vai-se debater a empatia.
Valentim, 7 anos, diz que está ali “para aprender a ficar mais
alegre”. A alegria foi um dos sentimentos que estavam a trabalhar na
aula a partir de um pequeno vídeo de animação. Da alegria foram até ao
orgulho. “Sinto orgulho quando sinto que vou conseguir”, define
Valentim, que dirá depois ao PÚBLICO que a "atitude" de que "gosta mais"
é a paciência. “Às vezes fico impaciente porque o meu mano mais novo
está sempre a interromper-me e não quero ficar assim."
Ao fim de quase dois anos de escola das emoções, há crianças no
jardim-escola João de Deus, em Leiria, que “começaram a questionar-se
mais sobre como o outro se sente, a antever a sua reacção e a adoptar
comportamentos” em função dessa percepção, relata Vera Sebastião,
directora daquele estabelecimento de ensino.
O projecto tem sido desenvolvido em parceria com a Associação Escola
das Emoções, criada em 2014, com o objectivo de levar aos mais novos
“ferramentas para poderem conhecer-se melhor”, diz Marco Coelho,
presidente da organização, acrescentando que o que está em causa “não é
controlar as emoções, mas sim saber identificá-las e geri-las”.
Entre sexta-feira e sábado, a escola de Leiria e a associação
promovem no ISCTE, em Lisboa, o seu segundo congresso sobre educação
emocional, sob o tema
De dentro para fora – como nasce a empatia.
E mesmo que ainda possam não saber exactamente o que quer dizer a
palavra empatia, este é o sentimento vivenciado por muitos dos alunos
que frequentas as aulas das emoções, que no jardim-escola João de Deus
faz parte do currículo das crianças de 4 e 5 anos de idade e é também
oferecido como actividade de enriquecimento curricular para alunos até
aos 9 anos, assegura Sílvia Branco, uma das psicólogas da associação.
“Conseguem olhar para o outro e perceber o que se está a passar”,
especifica. “É um projecto ajustado à ideia da vivência em conjunto. E
isto é importante porque quanto melhor soubermos relacionar-nos com os
outros, mas felizes seremos”, afirma Vera Sebastião, para acrescentar
que “é também um projecto preventivo já que pode ajudar desde cedo a
resolver problemas muito comuns na infância e na adolescência”. Tudo
isto, frisa, é tanto mais importante quanto hoje em dia as crianças
“vivem cada vez mais individualmente têm cada vez mais dificuldades em
saber lidar com as frustrações”.
E frustração é precisamente o
sentimento que Jaime, de 8 anos, aponta quando questionado sobre qual
sentimento escolheria. “É quando estamos tão ansiosos por irmos ganhar e
depois não conseguimos. Se soubermos o que isto é ficamos melhor”, diz.
Jaime é um dos seis alunos que participaram na aula das emoções a que o
PÚBLICO assistiu. Diz que “tem aprendido os sentimentos e a reagir com
os outros”. Resultado? “Zango-me menos, mesmo quando os meus irmãos se
põem a refilar."
"Menos medos, menos birras"
No início do ano lectivo e no
final a equipa da Associação Escola das Emoções faz um teste aos alunos
de modo a aferir a sua evolução. Os resultados do ano passado mostraram
que no final “havia mais medos resolvidos, menos birras, maior controlo
da agressividade”, diz Sílvia Branco.
Vera Sebastião confirma que estas mudanças também se fazem sentir nas
outras aulas. Aliás, no jardim-escola João de Deus não são só as
crianças que passam pelas aulas das emoções. Também as educadoras e
professores foram assistindo de modo a ganhar formação na área. Vera
Sebastião defende que a educação emocional devia fazer parte da formação
inicial dos docentes.
Seria um primeiro passo para outro ainda
maior que a associação defende – a inclusão desta componente no
currículo nacional. Recordam a propósito que no relatório da OCDE
Skills Strategy Diagnostic report Portugal 2015
se recomenda que
“o ensino em Portugal deve dar maior ênfase ao
desenvolvimento de competências emocionais (….), consideradas vitais na
redução do abandono escolar e melhoria da qualidade e equidade na
escola”.
Na aula das emoções, em Leiria,
Tomé, de oito anos, recusa-se a responder às perguntas do PÚBLICO. A
todas menos a uma. Que sentimento escolheria para aquele momento?
“Aflição.” Também recusou dizer porquê.